As cores do fim
Um peito moído. Um peito moído de carne e sangue. Um peito tomado pelo aperto profundo. Uma dor pulsante em forma de cone. Um olhar perdido de fundo de poço.
O tênis roxo, ao pé da cama, traz o pé que faltava pra pular da cama e sair do quarto. A pasta de dente ameniza o gosto das secreções da noite. O pó compacto uniformiza a pele e deforma a cor.
Um telefonema interrompe o café da manhã e desculpa a alma. O desejo de abrir a janela e ser engolida pelo mundo torna-se latente e, então, ela se joga pra ele, quase feliz, aliviada. O barulho do corpo moído, no choque com o chão, lembra o som de um abacate gigante caindo de maduro. O sangue, antes aprisionado no peito, é agora liberado pela cabeça e vai ganhando uma coloração rosada ao se misturar com a chuva. O líquido rosa vai tomando a calçada até se perder em algum bueiro dessa cidade cinza.
